Renato vai ao antigo quarto que era dele e Bruno. Em cima de uma cômoda velha, uma foto dos três irmãos, colocados ali pela sua mãe. Leandra entra no quarto suspirando e fala:
- Coloquei ai depois que Bruno se casou. Sempre venho aqui e lembro-me de quando eram crianças. E pulavam de uma cama a outra fazendo guerra de travesseiros. Você se lembra Renato.
- A senhora e o pai nem ligavam. Parecia que era normal toda aquela gritaria. Não sei como conseguiram.
Leandra alisa os cabelos dos filhos que ainda olhava para a foto.
- Eu e seu pai crescemos em casas cheias de meninada. Não era vazia igual essa. Sempre pensávamos que nossos netos iam correr por essa casa gritando feito doidos. Não foi o que aconteceu.
Renato com um sorriso tímido fala:
- Ainda está em tempo de isso acontecer mamãe. O Bruno, pelo o que eu sei, ainda não tem filhos. Mas pode ter.
Leandra fecha a cara na hora e vai saindo do quarto.
- Se aquela desmiolada da sua cunhada deixar meus netos virem na minha casa vai ser um surpresa e tanto para essa velha.
- A coisa está mais séria do que eu pensava com o Bruno. - Fala Renato gritando para a mãe que saia para a cozinha.
- Toma seu banho meu filho. Que a comida vai esfriar. - Diz ela de onde estava.
Renato tira sua roupa e vai para o banheiro suíte do quarto. E lembrou-se de como aquele banheiro, feito para os pais, foi um meio de segurar os meninos na casa. Eles tentaram de tudo para não deixar que os filhos fossem embora. Primeiro seu Diogo, pai de Renato fez o quarto para a irmã. Depois fez o banheiro no quarto. E sempre quando terminava o serviço falava.
- Se vocês quiserem monto até outra casa dentro dessa, para vocês não precisarem se mudar.
Mas Renato precisava desbravar o mundo. Afastar um pouco. Ver como era a vida sem a proteção persistente dos pais. E não foi fácil.
Saindo de casa depois de se formar no ensino médio da escola, decidiu que iria se mudar para Satsil, uma cidade vizinha de Erotildes, porém muito mais moderna. Lá entrou na faculdade particular. E trabalhando como entregador de pizza todas as noites para pagar aluguel e a faculdade conseguiu se formar. Quando começou a fazer um estágio num hospital publico daquela região. Para Renato foi o máximo ajudar aquela popular urbana tão precária num atendimento bem feito. Renato fazia o que podia. E seu serviço lhe roubava todo o tempo. E por ser muito reservado as amizades eram difíceis. Concentrara-se completamente no seu serviço. E estava se preparando para fazer mais um curso se preparando para uma área especifica da medicina quando recebeu a carta de sua mãe.
Preparou tudo para tirar suas férias já atrasadas e rumou para Erotildes.
Quando tinha ido, Bruno estava começando a falar sobre a menina Cláudia. Filha de um policial que tinha sido transferido de Satsil para Erotildes. Mas suas conversas eram típicas de um amor platônico que nunca iria acontecer.
E Juliana, sua irmã. Estava ainda nova demais. Sempre muito pressionada por Leandra a fazer tudo corretamente. Sua mãe nunca deixou passar nem um vacilo da filha que era motivo de repreensão. Juliana por fora parecia feliz com a vida que tinha. Mas Renato percebia que Juliana passava a guardar grande rancor pela mãe. Seus olhares quando as visitas iam embora a elogiando se desmontava da alegria para uma amargura. E surgia facilmente a alegria quando a mãe aparecia novamente. Renato sabia que esse furacão iria explodir algum dia.
Saindo do banho graças à reclamação de dona Leandra, Renato se veste e vai até a cozinha. Sua mãe tinha terminado de dar comida para seu pai. E se surpreende tão debilitado seu pai estava.
Ele sem falar nada pega o prato, coloca a comida. Dona Leandra enquanto lavava o prato que o marido tinha comida fala com um sorriso iluminado.
- Fiz a comida que você mais gosta. Macarrão com carne moída.
Renato rindo fala:
- Eu não como mais carne mãe.
- O que? - Diz ela constrangida. - Como? Por quê? Porque não me contou?
- Calma mãe. Eu como seu macarrão com carne moída. A senhora fez com tanto carinho. Mas estou evitando comer. Mas faço isso quando posso escolher o prato. Não tem condição de eu exigir algo da senhora.
- Tem sim senhor. - Diz ela se levantando e indo pegar o prato da mesa.
- Não mãe. - Diz ele calmo. Mas com firmeza já colocando o macarrão na boca. - Eu como agora. E não quero que se preocupe com isso. Eu trouxe algumas coisas que substituem a carne na minha alimentação e eu mesmo preparo minha comida. Se não for muito incomodo. Mas se for eu como qualquer tipo de carne que quiser preparar.
- Mas porque teve isso agora? Fez-te mau? - Pergunta dona Leandra se sentando e deixando o filho comer.
- Não é nada disso. É que acho que hoje em dia não precisamos matar uma vida para nos alimentarmos.
- O que? Mas são só galinhas, vaca, boi. - Diz Leandra estranhando, mas comendo com gosto.
- São vidas mãe. Sei que parece idiotices. Não imponho e nem desejo impor isso a ninguém. Mas é algo que acredito que é certo.
- Você é tão estranho filho. Sempre foi. - Renato olha para a mãe que ria. - Mas eu vou tentar me adaptar a essa sua idéia filho. Quem sabe não faz até bem para o seu pai.
- Não quero impor isso a senhora de forma alguma mãe. Mas fico feliz se quiser me acompanhar. E aconselho à senhora, se meu pai quiser comer carne, não o obrigue. Isso vai de pessoa para pessoa.
- Mas sempre ouvi falar que a carne tem vitaminas que precisamos.
- Mãe, em vegetais, frutas, leguminosas e cereais podemos obter os nutrientes de que o nosso organismo necessita, incluindo as proteínas. Outros produtos que os vegetarianos costumam usar para substituir a carne são o seitan, o tofu e o tempeh.
- Ou sim. Depois você me passa a lista que vou ver se o mercado do seu Ricardo tem. - Diz ela animada.
- Agora vou almoçar logo que quero ver se vou ver a Juliana ainda.
- Pode almoçar com calma meu filho. - Diz Leandra para o filho com carinho. - O Daniel falou comigo que vai deixar você entrar lá a hora que você quiser.
- Isso não é certo mãe. Devemos ter o mesmo tratamento que todos da região. O horário de visita é qual?
Leandra espantada em como o filho era perfeccionista em alguns pontos fala para ele:
- Meu filho, o horário é até as quatro, mas você tem que usar dos benefícios que você tem de ser filho de uma amiga do delegado da cidade. E muitos são e usam isso.
- Só porque as pessoas fazem as coisas erradas, eu não preciso fazer mãe.
Renato comeu rápido e já levantou da mesa para lavar o prato que comeu. Leandra pegou o prato da mão do filho falando:
- Não precisa. Se quiser chegar no horário para ver sua irmã temos que deixar essa vasilha para eu lavar depois. Dona Leandra pegou sua bolsa enquanto Renato a esperava do lado de fora.
Sua irmã sempre foi revoltada com a vida que levava. E sempre tentou crescer na vida. Se ela fosse guiada corretamente com certeza iria subir muito na vida. Mas Juliana sempre viu o lado negativo de tudo. E a forma que arrumou de melhorar sua vida foi saindo com pessoas que pareciam ter mais dinheiro.
Quando Renato foi embora, Juliana começava a se envolver com Drica. Uma menina da alta sociedade que dizia que iria tentar ajudá-la a arrumar um bom partido.
Leandra saiu correndo e bateu na porta na porta da vizinha.
- O Luana! O Luana!
Renato riu do jeito descontrolado da sua mãe. E logo uma mulher abriu a porta.
- O que foi mulher?
- Fica com o Diogo um pouquinho. Tenho que levar meu filho para ver a irmã na delegacia.
- A você me disse mesmo que o Renato iria voltar. - Diz ela abrindo um grande sorriso para Renato que estava na porta de sua casa ainda. Deixou dona Leandra na porta de sua casa e foi cumprimentar o rapaz. - Que bom que veio Renato. Sua mãe estava precisando muito de você.
- Eu sei. Por isso estou aqui. - Diz ele cumprimentando com alegria também a mulher que ele lembrava com tanto carinho. Não tinha doze anos quando ele foi embora.
- Vamos meu filho! - Diz Leandra desconsertada pela excessiva alegria de Luana por ver Renato.
Os dois caminharam pela rua deixando Luana sozinha na casa com seu Diogo.
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