quarta-feira, 3 de abril de 2013

Capitulo 1 - A chegada


Renato desce do ônibus segurando sua mochila. Ele olha para pequena cidade Erotilde, onde passou toda infância e adolescência enquanto espera o motorista do ônibus pegar sua bagagem, no bagageiro.  
O ônibus sai assim que o motorista deixa a bagagem no chão sem ver a mão de Renato estirada para pega-la sem que molhasse no barro do asfalto.
Renato pega com calma a mala. Uma bolsa vermelha com alças largas e tenta limpar a sujeira. Ele caminha até o terminal que ficava a uns cinquenta metros de onde o motorista o deixou, sem tempo para deixá-lo no local correto.
Renato vai até o balcão de atendimento e fala com o atendente, um sujeito de cabelos escuros e com olhos esbugalhados que olhava para a televisão com cara triste.
- Bom dia Jaime. – Diz Renato com um sorriso.
Jaime olha para cima e abre um também sorri alegre.
- Renato? É você?
- Sim amigo. – Diz Renato não disfarçando mais a alegria de ver o amigo e dando um forte abraço entre o balcão.
- Não acredito que você veio mesmo.  – Fala Jaime saindo de trás do balcão e indo cumprimentar o amigo com carinho.
- Já estava na hora de vir mesmo.
O sorriso de Jaime por um segundo some. Mas volta logo. E fala já fechando as portas enferrujadas do balcão.
- Acho que ninguém mais vai parar aqui. Vou levá-lo até em casa.
- Não precisa. O Bruno vai vir.
Jaime contrai o rosto.
- Se você quiser esperar tudo bem. Mas acho melhor ir logo. Não sei se...
- Acho que já entendo. Mamãe me contou sobre o que está acontecendo com ele também.
- Seus pais estão precisando muito de você Renato.
- Eu sei.
- Apesar de não dizerem. Tudo ficou um pouco pior depois que você saiu.
- Vamos? – Perguntou Renato com olhar triste. – Quero ver se encontro a Juliana ainda hoje.
- Vai dar tempo. O Diogo não vai deixar você sem ver ela.
Jaime termina de fechar uma porta tapando o balcão e coloca uma placa dizendo “volto já” na frente. E vai até um caminhãozinho velho.  Jaime pega as malas de Renato e taca atrás e os dois sobem no caminhão.  Dirigindo pela estrada de pedras de Erotildes com casinhas pequenas e rústicas e pequenas pracinhas limpas Renato não conseguia pensar em outra coisa se não na carta que tinha recebido da mãe. Ele pega mais uma vez a carta no bolso da frente da mochila. Ela já estava amassada. Mas Renato lê novamente.
“Filho, tudo está indo tão bem para você na cidade grande. Não gostaria de atrapalhar. Mas não sei mais ninguém para pedir ajuda. Desde que você foi para a cidade realizar seu sonho de ser médico, as coisas não estão fáceis. Sua irmã se envolveu com pessoas estranhas. E na ultima segunda ela foi presa por vender drogas. Ela jura que não usa, mas vi atitudes esquisitas nela. E seu irmão em vez de ajudar fez foi se casar com a Claudia. Ela se revelou ser uma mulher muito difícil. E manipula seu irmão com muita facilidade. E seu pai de tristeza está doente. Preciso de você aqui meu filho. Não tenho mais ninguém. Escrevo, por que sei que está na época de suas férias. Venha meu filho, por favor.”

Renato olha para Jaime. Na cara dele dava para sentir que precisava falar algo. E Renato respirando fundo solta o estopim para que Jaime começasse.
- Minha mãe deve ter passado uma grande barra não é?
- Todos aqui na cidade estão passando por uma grande barra depois que você foi embora Renato. Eu precisei muito de você também.
- Eu sei Jaime. Eu entendo e fico triste por saber disso.
- Eu precisei do meu amigo quando a Paula me deixou.
- Ela te deixou?- Pergunta Renato triste.
- Sim. A Clarinha se acostumou rapidamente. Ela tinha apenas um ano quando ela se foi.  Mas eu... Ainda a vejo em cada pedaço dessa cidade. Da época de namora, do nosso casamento. Cara, eu de verdade precisava de você.
Renato fica triste, mas se alivia ao ver que tinham chegado. Uma casa velha no meio duma rua sem asfalto e cheia de poeira.
Renato estranhando fala:
- O que aconteceu com a casa da minha mãe?
- O que aconteceu com toda cidade. Ficou descuidada.
De repente uma senhora sai para o lado de fora.  Ela era baixa e bem magra, cabelos compridos e loiros presos numa pano velho amarrado a cabeça. Seu olhar triste mostrava a solidão que sentia. E ao reconhecer o filho chegando seus olhos claros se encheram de lágrimas. Ela cambaleando de tanta emoção se aproxima da camionete. Renato segurando as lagrimas desse do carro e abraça a mãe.
- Meu filho. Pensei que não viria.
- Mas ele veio dona Leandra. Eu o trouxe, são e salvo. Como havia lhe prometido.
-Vamos mãe. Pare com isso. – Diz Renato vendo a mãe não desgrudar de um abraço e um choro compulsivo.
Jaima leva as malas para dentro e Renato leva a mãe que não o soltava. Eles se sentam no sofá pobre da casa.
- Meu filho. Eu pensei que ia morrer sem te ver novamente.
- Não fale bobeira mãe.  Para que esse desespero.
- As coisas estão muito difíceis meu filho.
- Cadê o pai.
Dona Leandra olha apreensiva para Jaime que colocava as malas de Renato num canto. E vira-se para a cama.
- Seu pai está no quarto. Ele não levanta mais da cama.
- Mas está tão grave assim.
Diz ele se levantando e indo para o quarto. Mas dona Leandra o segura pelo braço.
- Espere meu filho. Ele não fala mais coisa com coisa.
- O que?
- Não se importe com o que ele está falando.
Renato apreensivo entra no quarto dos pais. E vê o pai deitado na cama. O pai com aspecto horrível se vira para o filho.  
- Bruno? – Fala ele. – É você meu filho?
- Não pai. Sou eu o Renato. – Diz ele se aproximando.
- Renato? – O velho solta uma baforada de zoação. – O Renato está longe. Ganhando dinheiro. Diferente de você seu imprestável.
- Não fala assim pai. Aposto como o Bruno também é trabalhador – Fala Renato se sentando na cama.
A mãe se aproxima da porta. E o velho ri para ela.
- Paloma, veja só. O Bruno fala. Pensa que eu sou bobo.
- Ele está assim Renato. Não reconhece ninguém. Chama-me dessa tal de Paloma. Nunca ouvi falar.
- E já procuraram um médico?
- Isso não tem jeito não. É velheira. – Diz dona Leandra voltando para a cozinha onde olhava umas panelas no fogo. Renato a segue.
- Mas mãe. Pode ter tratamento. O pai não é tão velho assim.
Jaime entra na cozinha também.
- Os médicos dizem que ele não tem nada Renato. Já procuramos especialista. Dizem que ele está são.
De repente entra uma linda garota cai nos braços de Jaime.
- Papai!
Jaime abraça a menina e beija. Renato sorri:
- Essa que é a Clarinha? Como está moça.
- Está com quatorze anos.  – Diz sorrindo Jaime.
- Mas está dando um trabalho. – Diz dona Leandra. – Onde você estava menina?
- O que? Ela não estava aqui como eu mandei? – Pergunta Jaime nervoso.
- Mas a senhora é uma velha fofoqueira em dona Leandra!
Ao falar isso ela sai correndo pela porta de saída da cozinha, pulando a cerca e descendo a rua em direção ao matagal. E Jaime nervoso corre atrás dela.
Renato olha assustado para a mãe.
- Mãe. Ainda a senhora tem aguentar isso.
- O Jaime não tem mais ninguém. Eu cuido da menina enquanto ele trabalha lá na rodoviária.  A pobrezinha não tem um pulso firme. O Jaime para agradá-la e para ela não sentir falta de uma mãe faz todas as vontades. Mas vamos parar de falar nisso. O almoço está pronto.

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