José e Severina caminham pela rua. Severina apressada e com cara de nervosa e envergonhada. José do seu lado tentava acompanhar a filha.
- Filha eu quis vir te acompanhar para a faculdade para agente poder conversar. Eu não quero que fique esse clima entre agente.
- Não tem clima nenhum pai. E não tem nada a ver, você vir para a faculdade comigo. As pessoas vão falar depois que eu estou sendo acompanhada por outro homem, o Ailton não vai gostar.
José rindo fala:
- Ia ser até bom pra ele Severina. Ele ia perceber que ele não está cem por cento no controle.
Severina solta um sorriso finalmente. E fala com carinho para o pai:
- O senhor acha mesmo.
- Um amor que não tem um pouquinho de ciumes não é amor.
- Você acha que ele iria brigar.
- Não. No máximo vai querer saber quem eu sou. E você não conte que era com seu pai que estava. Deixa ele se torturar um pouquinho.
Severina abraça o pai com carinho e fala:
- Eu quero só ver a cara dele.
Eles chegam na porta da faculdade.
- Viu pai, como é bom quando o senhor não acusa o Ailton de não ser boa pessoa.
- E a senhorita viu como é bom quando você não implica por eu ter rejuvenescido.
Eles se abraçam e ela entra na faculdade. José sorri feliz olhando para o vastidão que tinha do lado da faculdade. Sua localização era na saída da cidade, um deserto, e no meio do nada a faculdade. Apesar de não ficar longe.
De repente José ouve uma voz falando:
- Você está cansado de gastar sua eternidade sem fazer algo útil?
José olha atencioso para onde vinha a voz. De dentro de uma sala de aula.
Ele caminha até a porta da sala e vê uma mulher muito bonita de origem asiática falando para a turma.
- Temos uma resposta para você, a Faculdade de Engenharia de Satsil.
Um dos alunos levanta a mão e fala:
- Mas dona Link Gocal, não faz sentido ter uma faculdade de engenharia no mundo fantasmagórico se nos não podemos construir nada.
- Ai está uma afirmação. Eu quero que vocês me façam perguntas! Se podemos criar alimentos, porque não podemos criar matéria prima para construção de casas, ou para auto-moveis? De onde vem esses objetos que usamos, que podemos ter?
José intretido fala:
- Vem da nossa força de querer aquele objeto. Ele é criado da nossa mente, e não de matérias primas primitivas como a do universo dos vivos.
Todos se viram para José inclusive Link, que fica com um sorriso nos lábios.
- Sim. Gostaria de participar de nossa palestra?
José apenas se senta numa cadeira vazia e fala:
- Bem, se nos podemos querer pequenos objetos como canetas, mantimentos, bebidas, cigarros e até mesmo drogas. Porque não funciona com a casa?
José levanta mais uma vez a mão e fala:
- Porque usamos esses objetos por pouco tempo. Não é?
- Sim. E também porque são objetos simples. Uma casa é uma estrutura grande. Cheia de mecanismos difíceis Conseguimos comercializar esses objetos porque jogamos a ideia do fabricante num arquivo de dados e transportamos para a ideia da pessoa por meio do toque. Compramos ideias de pessoas que já estão a centenas de anos estudando para ter mentalidade para formar as ideias desse objetos. Mas até para eles tem um limite. E esses objetos mais complexos é o limite.
Mas estamos criando na Faculdade de engenharia de Satsil um HD que consegue criar ideias.
Primeiro o grande cientista Long Shi Wham veio para o Brasil, para criar o computador e o HD correto. Agora finalmente, depois de um monte de pesquisas neurocientíficas, conseguimos redimensiona lo para caber os dados da primeira casa construída no mundo dos fantasmas. E a faculdade de Erotildes foi a escolhida por um sorteio para desenhar um modelo dessa casa. Escolhemos a turma de desenho por esse motivo.
Alguém passa a distribuir folhas especificas para desenhos de arquitetura. E Link Gocal se aproxima de José com um sorriso.
- O senhor sabe desenhar?
- Eu era arquiteto quando era vivo senhorita Link.
- Que bom saber disso. - Fala a japonesa entregando-lhe uma folha.
Todos passam a desenhar. E logo as folhas são entregues. Link se vira para todos e fala:
- Foram muitos desenhos lindos que tivemos. E um jure especificamente treinados para tal assunto, ira escolher o melhor desenho para a casa.
Um sinal toca e todos começam a sair. José vai para sair também quando alguém se segura o braço. Ele se vira e vê a jovem mulher.
- Senhor José Baron Dahmer. É esse o nome? Foi isso que colocou no seu desenho.
- Sim. É meu nome.
- Poderia esperar alguns minutos para termos uma conversa.
Todos saíram e Link Gocal fez José se sentar numa cadeira e ela em outra.
- Fiquei espantada com seu desenho senhor José. Enviei para meu chefe e ele concordou com o que decidi.
José ficou na expectativa. E ela falou:
- Quero fazer uma proposta para o senhor. Quero que venha participar do nosso grupo para construir a primeira cidade totalmente fantasmagórica.
- O que?
- Isso mesmo. Esse projeto era só para construir a primeira casa para apresentarmos em esposições. E dizer que fazemos nossa parte para ganhar novos estudantes de ciências depois da morte. Mas o seu desenho ficou espetacular. Queremos você no nosso grupo.
- Nossa. Mas eu tenho um tempo para decidir.
- E é algo muito bem decidido. No primeiro período Que será do nosso estudos estamos trabalhando na cidade mais populosa do mundo. E não é fácil viver lá.... quero dizer morrer lá. Lá a população é contada rigorosamente. E para você entrar alguém tem que sair. E teremos que dormir ao relento por não ter uma sede própria no local. Não vai ser fácil, mas será um bem tão grande para a sociedade fantasmagórica.
José não sabia se ria ou se estranhava. Logo ele fala:
- É uma proposta muito tentadora. Eu sou casado. Tenho que conversar com minha esposa... e meus filhos. Não vou levar todos. Mas minha esposa...
- Só teremos lugar para você e sua esposa senhor José. E ela terá que abrir mão de muitas coisas para poder ir. É algo que vocês terão que conversar muito. Esse é meu número. Assim que tiver com a resposta eu mando-lhe buscar.
José caminha até a rua estarrecido. E chega em casa.
Arabela estava vendo televisão, ao lado de um tanto de outras mulheres, inclusive Selina e Sergio que conversavam sobre a vida de modelo internacional com a mãe.
José segura a mão de Arabela e fala:
- Temos que conversar Arabela.
- Fala depois José. Eu estou vendo a novela. - Diz ela pegando batatinha e comendo sem nem olhar para o marido.
- Arabela, é sério.
Arabela olha nervosa e fala:
- Não dá pra falar aqui Zé?
- Não. Não dá. - Diz José olhando para as amigas de Arabela olhando para ele curiosas.
Arabela olha amedrontada para José. E fica vermelha de raiva e se levanta e vai para o quarto apavorada perguntando gritando aos cochichos para o marido.
- Eu não acreditando que seja isso José. Não tó acreditando.
- Acreditando o que Arabela? O que você pensa que é? - Diz ele falando alto. Arabela que tentava cochichar falando alto fala:
- Fala baixo. Olha o vexame! Não vê que estou falando baixo com você? - Eles param no meio do corredor e ela fala nervosa. - Eu não vou me separar de você José.
- O que? Não é isso...
- Você rejuvenesceu porque você quis. Agora vai ter que aguentar a velha aqui viu.
- Arabela por favor. Deixa eu falar...
- Você arrumou outra! Foi isso! - Diz ela saindo nervosa para a cozinha. - Eu fico aqui cuidando desse amontuado de gente que você quis colocar na nossa casa por caridade, e você me chifrando lá fora Zé?
- Arabela deixa eu falar pelo amor de Deus! -Grita ele falando ela calar. Ela começando a deixar lágrimas cair dos olhos tenta se controlar e ouvir o homem.
- Não é nada disso. Eu recebi uma proposta de trabalho.
- Você? Trabalho? Pra que? O bar do Fabinho já paga as nossas contas...
- Eu quero voltar a minha profissão Arabela. Eu quero voltar a ser arquiteto.
Arabela começa a rir e fala com um sorriso debochado.
- Você está zoando com a minha cara Zé? Não sei se alguém te contou. Mas fantasma não constrói casa não fi. Endoidou homem?
- Estou falando sério Arabela. Por favor deixa eu falar. - Diz José tentando se controlar. - Eu tive uma proposta de uma professora da faculdade de ciências em Satsil.
- Você tá querendo ir para Satsil?
- Eu estou querendo que "nós" vamos para o Japão Arabela.
- Você está querendo me levar para aquele inferno. Você tá louco! Eu não vou lá de jeito nenhum!
Diz ela voltando para sala nervosa. José a segue e fala já alto.
- Arabela você quer ficar aqui a eternidade inteira vendo novela?
- Não Zé! Não, não e não! Mil vezes NÃO!
- Arabela é uma oportunidade única. Eles reconheceram meu trabalho. Fui reconhecido numa faculdade de desenho. Onde tinham milhares de desenhos.
- Não me interessa se você sabe desenhar ou não José. Eu não vou para um lugar onde não tem espaço nem para andar.
- É por pouco tempo Arabela. Não é pra sempre. Nos vamos fazer o projeto para uma cidade inteira feita por nós. Vamos ficar só no período de pesquisas.
Nesse momento a conversa já tinha virado uma gritaria onde todos olhavam para os dois. Logo Ricardo já estava lá vendo os dois.
- Me deixa ver minha novela Zé! - Diz ela saindo da sala e indo para o quintal de casa correndo da briga. Mas José segue ela e continua.
- Não Arabela! Nos vamos conversar!
- Eu não vou Zé. Eu tenho uma vida aqui. Meu filhos estão aqui. Meus netos estão aqui. Você quer largar tudo isso.
- Eu quero é que você largue de ser ignorante e pense um pouco. Vamos fazer algo da nossa vida. Largar dessa mesmice, dessa chatice.
- Então minha vida com você é isso pra você Zé? Mesmice, chatice?
- Não Arabela, eu não falei isso... - José pensa um pouco e fala aos berros igual a esposa. - Quer saber de um coisa. É isso sim. Nossa vida é uma mesmice mesmo, uma chatice. Mas podemos concertar isso Arabela. Eu resolvi rejuvenescer por causa disso. E quero ir para o Japão com você por causa disso.
Arabela chorando fala:
- Essa vida que você chama de mesmice e de chatice Zé, eu gosto, e não quero largar.
- Pois então eu acho que chegou a hora da gente se separar Arabela.
- Vô!- Diz Ricardo assustado.
- Não Zé! - Diz Arabela assombrada.
Mas José fica firme olhando para a esposa.
- Eu não vou suportar ficar mais tempo nessa vida e você não vai suportar ficar sem essa vida. Chegou a hora Arabela.
- Eu sou tão pouco assim para você.
- Eu é que nunca fui o bastante para você fazer o que eu queria. Eu é que sempre tive que me dobrar. Quando chegou a minha vez você recuou. Você só me aceitaria se fosse do seu jeito Arabela. Mas eu quero agora do meu jeito.
José sai nervoso de casa. Deixando Arabela chorando no meio de todos a vendo. Ricardo segura a avó e a leva para o quarto.