Todos se sentam em volta da enorme mesa da cozinha da casa de Maria no mundo dos vivos, e no mundo dos mortos a casa de Ario e Arcelia. Ario se senta na cabeceira a direita, Arcelia ao seu lado a direita. Logo vem Arcadio, Arinaldo na outra cabeceira da mesa, Araí do seu lado, depois vem Ricardo e finalmente do seu lado sobrou lugar para Augusta.
Todos comiam com calma e em silencio. Ario para quebrar o silencio fala rindo:
- O que está achando do mundo dos vivos Ricardo? Está a pouco tempo com agente.
- Ele morreu a menos de um mês. - Diz Araí para Augusta aos cochichos.
Ricardo mordendo um pedaço de um brocólis fala:
- Tem várias coisas que tenho que adaptar. Por exemplo a comida. Nunca imaginei que um dia ia virar vegetariano.
- Não dá para matar um frango nos mundos dos mortos para assar. Não é Ricardo? - Diz Arcelia rindo. - Ele já está morto.
- Outra coisa que me deixa agoniado é as roupas grudadas no corpo. Muitas vezes fico apertado e me urino todo. E ainda fico em duvida de alguns assuntos intimo por não poder tirar minha roupa.
Ario responde Ricardo que estava todo vermelho.
- É que aqui no mundo dos mortos, só podemos fazer alguma coisa se queremos mesmo. Por isso que não aprendeu a tirar sua roupa ainda. Não podemos usar outras. Mas tira-las para tomar banho, ou para fazer outras coisas mais...-diz ele fazendo um tom malicioso, olhando para a esposa.- É fácil quando queremos muito.
- Mas eu queria muito tirar essa roupa e não pude. - Diz Ricardo demonstrando que estava estranhando muito aquilo tudo.
- É porque você está a pouco tempo com agente Ricardo. - Fala Augusta com um sorriso. - Eu, por exemplo, fui dar conta de tirar minha roupa com cinco anos que estava no mundo dos mortos.
Ricardo se vira para Augusta e fala:
- Quanto tempo está no mundo dos mortos Augusta?
- Vou fazer aniversário de morte segunda-feira que vem. Já faz sete anos que mori.
- Aniversário de morte? - Pergunta Ricardo estranhando outra coisa.
- Sim Ricardo. - Diz Arcadio rindo. - Eu também estranhei. Mas aqui, no mundo dos mortos, se comemora o aniversário duas vezes. Quando nasceu e quando morreu.
- É cada coisa. - Diz Ricardo virando os olhos rindo.
- O jantar está uma delicia dona Arcelia. - Diz Araí educada.
- Obrigada minha filha. Fiz com a orta que o Arcadio está cuidando. - Fala Arcelia com orgulho.
- Aonde que está esta orta Arcadio. Adoraria ver.
- Não é aqui em casa não Araí. É na fazenda que estou trabalhando. Estou ajudando o seu Plínio a cuidar da fazenda.
- Fica aonde? - Pergunta Ricardo interessado.
- Fica perto da faculdade de Erotildes. Saída da cidade.
Augusta se levanta com um sorriso.
- Estava muito gostoso o jantar dona Arcelia, mas preciso correr. O cinema vai abrir cedo hoje.
- Ai minha filha, esse serviço seu não existe. - Diz Arcelia se levantando para levar a visita até a porta.
Arinaldo fala:
- Eu já falei para ele procurar terminar os estudos. Mas ela não quer mãe.
- Ela não é mais casada com você. E isso não depende mais de você Arinaldo. - Fala Arcelia saindo para sala.
Ricardo se levanta e fala:
- Espera Augusta. Eu vou com você. - Todos se voltam para Ricardo maliciosos. E ele percebendo tenta remendar. - Meu pai agora está sozinho no mercado. Meu avô viajou e tenho que ajuda-lo.
Araí maliciosa fala:
- Vai filho. Nos entendemos.
- Estava maravilhosa sua comida dona Arcelia. Adorei.
- Volte sempre que quiser meu filho. As portas estarão abertas quando precisar. - Fala Arcelia já na porta ao lado de Augusta que esperava a companhia.
Arinaldo rindo vendo que o casal já tinha ido embora fala:
- Será que vai dar certo esses dois gente?
- Tomara que sim Arinaldo. Estou esperançosa para essa tristeza do meu filho acabar. - Diz Araí confiante.
- Eles formam um belo casal. - Diz Arcadio se levantando e já indo para a sala.
Araí também se levanta e pega os pratos falando:
- Pode deixar dona Arcelia, que hoje eu lavo as vasilhas.
- Obrigada Araí. Estava mesmo muito cansada.
- Vamos que vou te ajudar a descansar meu amor. - Diz Ario também se levantando.
Eles de mão dadas sobem as escadas e entram em seu quarto. Arcelia tranca a porta do quarto e rindo pula na cama.
- Estou muito feliz Ario. Falta só a Maria também vir pra cá para a minha felicidade completa. O Arcadio não mais vai ficar triste daquele jeito.
Ario beija a esposa se deitando na cama também e fala:
- Quem sabe não era melhor agente arrumar uma outra mulher para Arcadio também?
- Impossivel. Arcadio ama Maria...
- Então deixa eles um pouquinho de lado. E vem cuidar do seu maridinho um pouquinho.
Ario tira a camisa que vestia sem problema nenhum e beija sua esposa amorosamente, deixando-se cair sobre ela.
Depois de alguns minutos abraçados, debaixo da coberta, Arcelia abraçada ao marido respirava calma e tranquila. E Ario se levanta da cama, veste as suas roupas e sai apressado. Apenas Arcadio estava vendo televisão ao lado de Maria na sala. Ario se vira para ele e fala:
- Se por um acaso a Arcelia acordar e perguntar por mim. Fala que fui fazer umas compras no mercado.
Arcadio balança a cabeça com um sorriso no rosto. Ele sabia que o pai iria fazer uma surpresa.
Ario caminha pela rua até a rodoviária que ficava quase na outra saída de Erotildes, do outro lado da faculdade. Ele encaminha para a atendente e fala:
- Moça, eu gostaria de apressar duas passagens para o reino Atlântico.
- O um, dois ou três?
- Não sei moça. Aonde que é esses lugares?
A moça se afasta um pouco para ele ver um mapa aonde mostrava o oceano próximo ao Rio de Janeiro e fala:
- O um é mais perto da costa, o dois mais longe e o três é oceano profundo. Por enquanto temos até esses lugares.
- Pode ser o três.
- Com excursões ou não?
- Com excursões.
Ario sai do aeroporto e caminha até o bar de Fábio. Ao entrar ele já cumprimenta Fábio com um sorriso.
- Fábio, tudo bem?
- Tudo beleza Ario. Como foi o jantar com Ricardo?
- Foi ótimo. Se o Ricardo até agora não chegou para te ajudar então foi melhor do que pensávamos.
Ele compra e logo chega em casa. Ao abrir a porta ele vê a esposa da cozinha vendo o filho triste ao lado de Maria. Ario passa pela sala e Arcadio o vê e pergunta:
- Comprou pai?
- Sim filho. - Diz alto Ario para o filho demonstrando que a mãe os estava observadio. - Eu fui no supermercado e comprei tudo que estava faltando em casa.
Arcadio percebe e fala sério.
- Ou sim. Que bom. Estava mesmo sentindo falta de algumas coisas.
Ario vai até a cozinha aonde Arcelia estava. Ela se aproxima de seu marido, enquanto ele tentando esconder sua vergonha por mentir para a esposa, pega algo na geladeira.
- O que está me escondendo Ario?
Ario pega uma garrafa de água e bebe do bico, falando com cara de quem estava escondendo alguma coisa, sem duvida nenhuma.
- Não estou escondendo nada amor. Porque pergunta?
- Porque você está tentando desviar o olhar dos meus. Isso na maioria das vezes é porque você está mentindo para mim, ou por que fez alguma coisa errada.
Ario guarda rapidamente a garrafa de água na geladeira e fala indo para o quarto.
- Você viu como o Arcadio está triste?
Arcelia o segue e fala:
- Ario estou ficando preocupada.
- Porque querida?
- Porque você está querendo que eu me preocupe com nosso filho. Você nunca faz isso se não é algo sério mesmo.
Ela o puxa bruscamente no meio da escada e o recosta contra a parede e fala olhando nos olhos.
- Fala logo Ario!
Ario decepcionado se senta no degrau da escada e fala rindo para a esposa.
-Está bem Arcelia. Eu queria te contar de outra forma. Mas você não deixa.
Arcelia se senta no degrau também, porque conseguiu o que queria.
- Eu comprei passagens para agente conhecer o oceano.
- O que? - Diz Arcelia fechando o sorriso. - Porque?
- Para agente descansar Arcelia. - Diz ele para ela, que já se levanta e vai para a cozinha.
- Eu não estou cansada.
- Você não gostou? - Diz ele com a voz aborrecida. Ela percebe e se vira e fala preocupada.
- É que não é o melhor momento. Você está vendo como está o nosso filho.
- Arcelia, nosso filho vai conseguir resolver os problemas dele sozinho. Ele já ficou sem você antes, durante seis anos.
- E não vou me separar dele de novo. - Diz Arcelia nervosa e subindo para o quarto.
Ario agoniado com a atitude da esposa só vê uma alternativa. Vai até a sala e na frente de seu filho que assistia televisão com a sua esposa, que ainda estava viva, fala:
- Filho, converse com sua mãe. Ela não quer ir para o Oceano, por sua causa.
- O que? Porque "por minha causa"?
Ario meio sem jeito se senta na beirada do sofá e olhando firme para o filho fala:
- Estamos preocupados com você Arcadio. Fica o dia inteiro aqui, assistindo televisão ao lado da Maria. Filho, você precisa viver...digo... viver sua morte... você me entendeu.
Arcadio se levanta e fica olhando a janela sem coragem de encarar o pai. E fala de costas para ele.
- Pai, eu não suporto fazer as coisas sem a Maria. Ela é motivo de eu viver. E não aguento "viver minha morte" sabendo que ela está aqui, triste na sala, por que eu morri.
Ario se aproxima do filho e fala:
- Ela ficará muito mais triste sabendo que você não fez nada nessa nova vida sem ela. Prepare um caminho para ela chegar bem aqui filho.
- O que o senhor quer que eu faça? - Pergunta Arcadio se virando para o pai.
- Não sei. Faça um curso de artes, volte a trabalhar na área que trabalhava. Contabilidade tem necessidade aqui no mundo dos mortos também.
- Eu já trabalhei a minha vida inteira em contabilidade pai. Não vou passar a eternidade fazendo isso também.
- Vai na faculdade. Procura um curso novo. Comece tudo de novo. Vai gostar.
- Vou pensar pai. - Diz Arcadio indo para a cozinha.
- Não quero que pense. Quero que aja.
- Primeiro vou agir conversando com minha mãe. Tudo bem?
Ario abre um sorriso e fala:
- Tudo bem.
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